Acompanhantes que testemunham

A provisoriedade é uma das características mais singulares do serviço de animação por um Mundo Melhor. Sem dúvida, esta singularidade marcou a nossa vocação e missão, pessoas e tarefas. Não nos deve causar estranheza se temos que mudar alguma coisa no Grupo Promotor.

As Exercitações, na sua origem e na primeira etapa, contribuíram para abrir horizontes a muitas pessoas e grupos, numa sociedade e numa Igreja duma época muito concreta. Basta evocar alguns factos mais significativos como a segunda guerra mundial, o Concílio Vaticano II, o Maio de 68…

Neste contexto, o P. Lombardi e o Grupo `Promotor do MMM estiveram muito atentos à leitura dos sinais dos tempos, às lufadas de ar fresco que brotavam na Igreja e na sociedade. A vocação e missão do G.P., segundo o P. Lombardi, “deve conservar-se sempre na linha da animação o espiritual, embora comos necessários contactos com teólogos, pastoralistas e organizadores.” Pessoalmente, creio que, nos finais dos anos 70 e princípio dos 80, houve uma volta pastoralista no Grupo Promotor que culminou com o Congresso de Espiritualidade e ainda perdura nalguns grupos locais.

Hoje, num mundo globalizado, pluricultural e plurirreligioso, nos está a provocar novas perguntas. Bauman1 foi um sociólogo de referência, que pôs em circulação os conceitos de” modernidade líquida, sociedade líquida, o amor líquido” para definir o actual momento da história em que as realidades sólidas dos nossos avós, com o trabalho e o matrimónio para toda avida, se desvaneceram. Para ele, “a vida líquida” é aquela que está “submetida apresenta à influência dos nossos conceitos neoliberais que cria pessoas desarraigadas que consomem experiências e procuram gurus”. As pessoas de hoje, em geral, ficam desprovidas de resposta às suas necessidades mais fundamentais, é mais, nem sequer lhes é permitido apresentá-las e, além disso, orientam muitos dos seus desejos para a satisfação compulsiva que nos deixa flutuando, sem raízes em que se apoiar, sem significados e motivações de fundo em que ter pé; esta situação flutuante leva-nos a viver como “consumidores de experiências”.

Que acontece quando nos encontramos na vida diante de dificuldades sérias, ou algo que não sabemos? A quem recorrer? Bauman fala da busca de “gurus”, procurar apoios e seguranças fora, em vez de mergulhar dentro. Quantos gurus de todo o tipo há no nosso tempo!

Nesta sociedade “líquida” onde se abre um novo espaço para a “animação espiritual”, não para abrir novos horizontes com discursos, conferências e projectos , mas como acompanhantes que animam as pessoas  “habitar a própria casa”,  entrar no seu interior, avançar até ao profundo, descobrir os significados que surgem da experiência e desde o fazer pé em si mesmos, sair ao encontro das outras pessoas e da vida. Isso é o que pretendemos com a experiência dos itinerários, que nos estão levando a uma nova expressão das Exercitações.

Apelar à “animação espiritual” no Grupo Promotor não deverá ser algo de novo, mas encontrei algumas resistências em grupos locais, que fizeram experiência dalgum itinerário. Eu sinto a chamada a ajudar, oferecendo meios e instrumentos, que habilitem os grupos e as pessoas o MMM, a fazer uma “passagem” de pregadores e apresentadores de projectos a acompanhantes que testemunham. É toda uma volta que é preciso dar: do que “fazer” ao “ser que faz”; da acção pastoral” a “viver a partir de dentro do que se faz pastoralmente…

Dizia Paulo VI: ”O homem contemporâneo escuta com mais gosto os que dão testemunho do que os que ensinam, ou se escuta os que ensinam é porque dão testemunho” (EN 41).
Transmitir conteúdos sobre a ”Espiritualidade de Comunhão” é relativamente fácil e pouco comprometedor, basta documentar-se, fazer uma sequência razoável e facilidade de palavra. Mas transmitir o sentido, o significado, a motivação da “Espiritualidade de Comunhão”, isso já me questiona a mim mesmo, pois o sentido e o significado das coisas, neste caso da espiritualidade de comunhão, não pode ser dado como damos um objecto (conteúdo). A descoberta de sentido, significado, motivação… é tarefa pessoal e personalizadora. Ninguém pode viver por mim, mas os outros podem acompanhar-me nesta aventura.

Como é esse acompanhante que testemunha? Tomamos Jesus como referente, no papelque desempenha no relato dos discípulos de Emaús, segundo o evangelista Lucas (24, 13-35). O acompanhante, que é Jesus, sai ao caminho dos caminhantes (comunidade, amigos, grupode itinerário…) no momento de dificuldade. Aproxima-se, interessa-se por eles, ajusta-se aos seus ritmos e abre espaços de vida para a expressão.

Interessa-se pelo que vivem e oferece-lhes uma interrogação de vida para facilitar a sua expressão. Eles revelam os seus sentimentos, as suas experiências, tudo o que lhes causou dano. Recordam, com lamento, tudo o que os entusiasmou e já se foi. As suas palavras são um canto ao desespero.” Nós acreditávamos, nós esperávamos…”

Nesse espaço de confiança em que, pouco a pouco, eles se sentiram acolhidos, o acompanhante Jesus oferece um significado de vida realista e, ao mesmo tempo, esperançado. Reaviva neles a memória do amor e amplia o seu horizonte. As suas mensagens de vida ajudam os caminhantes a conectar com o profundo do coração.

Daqui eles mesmos são capazes de dar o salto para a alteridade, ocupar-se de Jesus, abrir-lhe o seu espaço, a sua casa, por tudo à sua disposição. É assim, nesta experiência de partilhar juntos mesa e caminho, que se afirma neles aa fé e se activa a esperança.

O acompanhante, com o seu ser-acompanhar, provoca neles a confiança que torna possível a volta, a capacidade de se transcender, acolher, ser solidários, tomar decisões e voltar à comunidade.

Para reflexão e partilha

Ÿ   Sinto a necessidade de fazer alguma mudança na maneira de realizar o serviço do MMM?

Ÿ   Como vivo e sinto hoje a animação espiritual nas actividades do MMM?

NACHO

1 Bauman, Vida líquida, Barcelona, Paidós, 2005

 

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